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Alma voluntária


Talvez uma das críticas mais contundentes já feitas ao trabalho dos tempos modernos (e é proposital aqui a leve referência ao filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin) tenha vindo de um jovem filósofo alemão que desenvolveu a noção de “trabalho estranhado”. Disse ele:
“O trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser. O trabalhador não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele; não se sente bem, mas infeliz; não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu espírito. O trabalhador só se sente junto a si quando fora do trabalho e fora de si quando no trabalho. Está em casa quando não trabalha e, quando trabalha, não está em casa. O seu trabalho não é, portanto voluntário, mas forçado, trabalho obrigatório. E tão logo inexista coerção física ou outra qualquer, ele foge do trabalho como se fugisse de uma peste.”

A idéia é que o trabalho é um elemento essencial na vida humana. Tão importante quanto comer, beber, vestir, morar e se divertir. E não pode haver ser humano que não trabalhe, porque ele simplesmente não consegue. É a nossa “atividade vital”. Porém, o sentido de trabalho nesse contexto é especial: trabalho é a própria interação da pessoa com o ambiente ao seu redor, seja a natureza, sejam as outras pessoas. E, nessa interação, a pessoa transforma esse ambiente, colocando nele propriedades de sua própria pessoa, de seu próprio ser.

Mas quando a atividade do trabalhador não expressa essa sua interação com o meio, torna-se algo vazio, sem sentido e forçoso. O trabalho, então, é algo externo ao trabalhador, estranhado. Daí, a conotação negativa que muitas vezes a figura do trabalho assume. De algo prazeroso, torna-se pesaroso. E o trabalhador, em vez de se realizar em sua atividade, a suporta como um mal necessário para conseguir os meios que lhe permitam atender o que lhe dá prazer. Então, trabalha-se para viver – e, no caso, viver significa aquilo que se faz depois do expediente.

É verdade que um pouco dessa carga negativa do trabalho tem relação com a Queda, quando Deus fala a Adão sobre a necessidade de, dali em diante, suar o rosto para ganhar o pão. Porém, em lugar algum das Escrituras lê-se que a Queda anulou aquela graça comum da Criação que é a prazerosa interação do homem com seu ambiente, transformando-o, expressando-se e produzindo coisas novas a partir de sua criatividade singular. É a bênção do trabalho.

Talvez, quando recomendou a Salomão que servisse ao Senhor com “alma voluntária”, no texto que é base do tema do Encontro Nacional da Universidade da Família deste ano, Davi tivesse em mente que também o ministério – servir ao Senhor – pode se tornar um “trabalho estranhado”. E isso seria uma tragédia tanto para o ministro quanto para o próprio Deus: para o primeiro, o ministério se tornaria uma tarefa insuportável; para este, uma oferta inaceitável.

Por isso, Davi usou um termo hebraico que transmite a ideia de “ter prazer em algo”. Em português, aquele termo foi traduzido como “voluntário”, palavra que vem de volição (do latim, volitionis), que significa a ação de escolher, o exercício da vontade. Então, dá para entender o conselho de Davi: “tenha prazer em servir ao Senhor e o faça por vontade própria”.

O Encontro Nacional da Universidade da Família é a reunião de homens, mulheres, jovens e crianças que servem ao Senhor sendo família e apresentando às famílias do nosso País a obra divina da redenção em Cristo Jesus. A julgar pelo tema proposto, será também a ocasião em que o Espírito Santo nos lembrará do conselho do velho rei. Que nunca nos falte a alma voluntária para o glorioso trabalho que Ele põe diante de nós!

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