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Os beijos que nunca dei

Imagem ilustrativa
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É uma quinta-feira comum. Você coloca a mochila nas costas, com nossos materiais de estudo. Eu pego a minha bolsa e nossa garrafinha de água compartilhada. Subimos nas bicicletas e pedalamos impulsionados pela fome (afinal, é hora de almoço) depressa para casa. Eu sempre sigo, sem meditar a respeito, olhando para o pneu da sua bicicleta e o suporte de lanterna que fica logo em cima, na cestinha. Olho mais acima e você geralmente está com o cabelo na nuca um pouco despenteado e as costas meio curvadas até o momento que eu grito para você alguma coisa do tipo “precisamos passar no mercado para comprar tomates” ou “não podemos esquecer de ligar para o dentista”. Aí você se endireita e dá uma olhadinha de soslaio para trás, para mostrar que ouviu. Nesse momentinho que você vira, eu vejo sua barba já na hora de ser feita e arranco, se tiver sorte, um sorriso ou um beijo seu. Uma quinta-feira comum com uma rotina comum. Para mim, um milagre.

Quando chegamos em casa, eu fecho o portão enquanto você guarda nossas bicicletas. Eu dou uma olhada nos girassóis que plantamos, se ainda estão crescendo, e você verifica a caixa de correio por cartas. Quando subimos as escadas para nosso apartamentozinho, eu preparo o almoço e você organiza outras coisas para nós dois. Que casalzinho mais comum! E, para mim, de todas as formas, um milagre.

Quando finalmente nos sentamos à mesa e olhamos um para o outro, muitas vezes, sorrimos e suspiramos. Só então podemos parar para respirar por uma horinha depois de tanta correria. Então damos as mãos e você ou eu ou nós dois agradecemos a Deus pelo dia, pela comida, um pelo o outro, por nossa família, por nosso lar, por tantas bençãos em nossas vidas e pela alegria daquele simples evento. Não é um momento tão solene, a comida nem é tão gostosa (não sei cozinhar lá essas coisas!) e a decoração é indiscutivelmente bem simples. Vista de fora, uma refeição comum. Mas, inacreditavelmente, em si é um milagre maravilhoso.

Desde muito nova quando comecei a imaginar como você seria e desejei conhecê-lo, você estava tão distante quanto o sonho de voaralgum dia. Ninguém acreditava e, sinceramente, muitas vezes, nem eu. Decidi tão cedo que iria confiar em Deus que um dia Ele me traria você, mas, se for olhar bem, era mais a esperança de uma tola. Apesar que dizem que a esperança Nele nunca nos decepciona, não é?

Foi fácil esperar? Não. Mas eu precisei esperar. Mesmo quando riam. O que que diziam mesmo? Para uns, eu iria me tornar uma velha solitária numa casa cheia de gatos. Para outros, eu sofria de algum trauma ou frigidez. Outros ainda me tomavam por uma boba idealista, personagem de contos de fada Disney. Mas a verdade? Eu já o amava, em meu coração. O meu marido, o meu príncipe. E todos os outros perdiam em comparação.

Diziam que eu desperdiçava minha juventude. Que enquanto ficava sozinha em casa, eles estavam curtindo a vida. Que esse negócio de virgindade é coisa do passado. E que ninguém quer uma menina tão inexperiente, então era melhor acabar logo com isso.

Mas, sabe de uma coisa?

Nunca senti falta dos lábios de estranhos que deixei de beijar. Nunca desejei voltar atrás para ter a dor de alguma separação. Na minha consciência não pesam promessas sussurradas ao ouvido, mas nunca cumpridas. Não me arrependo dos relacionamentos que não tive. Se qualquer coisa, gostaria de ter tido menos cumplicidade com aqueles tipos, amigos-que-sempre-querem-mais.

Pois tenho um prazer indescritível, quase um formigar gostoso nos dedos do pé e até mesmo as famosas borboletas no estômago, quando penso que sempre fui totalmente sua. Só tenho a lembrança dos beijos nos lábios de um único homem. Um que sempre está com uma barba áspera que dói e tem os lábios mais macios e gostosos que eu posso imaginar. Um que é um tanto alto e sempre estará ao meu lado. Aquele que prometeu diante das nossas famílias e amigos me amar até que a morte nos separe. Meu sonho, meu desejo secreto e o que eu apaixonadamente esperava.

Era improvável que o homem perfeito simplesmente caísse do céu para mim? Sim, eu confesso. Era meio louco ter a expectativa de que isso iria acontecer? Certo… E ainda que o homem perfeito surgisse, quem diz que ele iria gostar de mim? Tem razão…

Então, eu desculpo os outros pela incredulidade antes e por agoraacharem nossa rotina algo assim tão comum. É uma quinta-feira comum. Somos um casal comum. E esse purê com peixe definitivamente é bem comum. Ainda assim é com o brilho nos olhos de quem foi muito recompensada que eu olho para você.

De todas as formas, você aqui comigo é um grande e fantástico milagre. E não tem nada de comum nisso.

“Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo.” Romanos 15:13

Texto original extraído do blog Mima Pumpking

Noemi B. Nicoletti
Escritora e criadora do blog Mima Punking

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