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Eu me recuso a não florecer!

Para você que sofre, no primeiro dia da Primavera…

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Em meados dos anos 1980, o pastor e professor Amaury de Souza Jardim publicou um livro que tinha por título “Primeiro as Flores”. Este título foi retirado de um artigo do mesmo autor, no qual ele falava da precedência das flores em relação aos frutos. Como tudo que o pastor Amaury escrevia, este livro, uma coletânea de crônicas publicadas na revista Vida Cristã, era cheio de beleza, poesia e de inspiração. Não sei se ainda é possível encontrar este livro, mas quem o possui tem em suas mãos um verdadeiro tesouro.

Lembrei-me deste livro ao ter minha atenção capturada por um cenário ao mesmo tempo desolador e inspirador durante uma de minhas muitas viagens neste mês de Setembro. A longa estiagem pela qual passa o Brasil, principalmente o estado de São Paulo, criou uma paisagem completamente diferente daquelas que costumamos apreciar quando cruzamos as cidades do interior paulista. O nível dos rios está impressionantemente baixo; a vegetação rasteira colorida por um dourado opaco, mistura da secura com a poeira; plantações inteiras sendo destruídas, umas por queimadas espontâneas outras por queimadas criminosas…

O cenário que me fez parar o carro e ficar por minutos meditando sozinho à beira da estrada era de uma área afetada por uma dessas queimadas. A vegetação característica do semicerrado estava praticamente destruída, o chão era coberto pelas cinzas e tocos, alguns ainda fumegantes. Mas, no meio do caos dominante, meus olhos atentaram para as árvores que margeavam a estrada. Ipês roxos cujos caules estavam carbonizados ostentavam em seus galhos mais elevados uma florada exuberante. Confesso que me emocionei ao reparar tamanho contraste entre o que meus olhos fitavam naqueles poucos metros que separavam cinzas e carvão do roxo profundo das flores que brilhavam sob o sol daquela manhã.

Meu espírito logo acolheu as lições daquele quadro: em primeiro lugar o ambiente externo e visível daquele lugar se parece com aquele que precisa enfrentar a vida, vendo-a ser consumida pela longa estiagem de boas notícias ou da ausência de algo que lhes regue a alma com esperança ou com a possibilidade de um amanhã diferente. Quantos estão ardendo sob a sentença de uma enfermidade, de um dilema familiar ou de uma crise ou fracasso espiritual que os assola como fogo impiedoso e destruidor. As reservas de força e ânimo vão se tornando cada vez mais escassas, como as águas dos rios ou reservatórios, sem que haja sequer uma pequena nuvem do tamanho da mão de um homem para reacender a fé e a esperança.

Este quadro é real e sofrido, mas ele não é o todo do cenário. Há mais que precisa ser visto e considerado, mas não está ao alcance dos olhos. É preciso conhecer e saber o que se passa em outro nível de realidade que é tão decisivo quanto aquele que está na superfície. E é aqui que está a segunda lição que recolhi naquela visão. Os caules daqueles Ipês estavam queimados, não suas raízes, nem os veios mais internos daqueles troncos. O fogo não conseguiu atingir o cerne daquelas árvores. Não foi na profundidade, não atingiu o seu interior. Feriu-os por fora, mas não os destruiu por dentro. Como dizia o velho apóstolo: “Ainda que nosso homem exterior se corrompa, nosso homem interior se renova a cada dia.”

Abaixo do que se pode ver, as raízes encontraram substância e vida. Elas penetraram a terra em busca do que garantiria a sobrevivência da árvore no ardor da queimada ou ausência das chuvas – e elas conseguiram. Sua casca pode estar consumida, mas seu homem interior é incorruptível, pois carrega a seiva divina que o próprio Criador faz circular em você.

Quando olhei para aquelas flores, foi como se cada uma daquelas árvores estivesse mandando um recado para a estiagem e para o fogo: “Eu me recuso a não florescer. Arda em mim fogo, retire meus recursos estiagem; ainda assim florescerei!” Foi o que disse o enfermo e moribundo Jó, mesmo em meio à sua descrença e pasmo diante das adversidades pelas quais passava: “Ainda que envelheça a sua raiz na terra, e morra o seu tronco no pó, contudo ao cheiro das águas brotará, e lançará ramos como uma planta nova.”

Aos meus olhos elas lançavam não só um desafio às circunstâncias, mas uma mensagem de que outra estação estava para chegar e com ela viriam mais flores e, logo depois, os frutos. Ainda que demorada, a chuva virá. Ainda que não pareça, os rios novamente encherão, e até o que foi queimado pelo fogo novamente brotará. É o ciclo da vida. É a ordem do Criador. E assim será com você meu irmão, minha irmã. Sua Primavera chegará!

Algumas pétalas roxas se espalhavam pelo chão em meio a toda aquela cinza e madeira carbonizada. Elas suavizavam e cobriam de esperança o ambiente destruído e sem vida. Permita que em meio a tudo que você esteja passando, um pouco da fé que há em você traga beleza e esperança para o cinza que o cerca.

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Foto: Dinart Barradas

Feliz Primavera!

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