Compartilhe!

Especial Dia das Mães

No deserto, ao encontro de uma mãe

Uma escrava negra, feita objeto naquilo que lhe era a mais humana de suas potencialidades: o ser mãe. Essa era Agar, em cuja história de vida a Bíblia não se detém. Nas leituras mais frequentes, ela aparece acidentalmente, sempre observada a partir do ponto de vista dos atores principais, Abrão e Sarai.

Agar era a mulher que não era vista. Não é dito quantos anos tinha, mas é provável que fosse muito mais jovem que seus donos. Lemos que era egípcia, mas não conhecemos os caminhos que a tiraram de sua terra e de sua família – se é que escravos têm terra e família – para o acampamento do rico e poderoso Abrão.

Ela aparece na história como um objeto, um meio para que sua senhora alcançasse seu objetivo. “Possua a minha serva; talvez eu possa ter um filho por meio dela”, disse a Abrão sua esposa Sarai, desesperada pela esterilidade. E, nesse jogo todo, Agar nunca esteve em foco, nunca foi considerada “per se”. O que tinha valor era sua capacidade de dar filhos – literalmente dar filhos, dar filhos a Sarai.

Mas isso só era importante até o ponto em que o humor de sua senhora não mudasse. Quando Sarai se sentiu “desprezada”, nem a condição de gestante salvou Agar. Abrão permitiu que Sarai fizesse com ela o que bem entendesse. “Então Sarai tanto maltratou Agar que esta acabou fugindo”, prossegue o relato de Gênesis 16.

Grávida, torturada e em fuga. Mesmo assim, continuou sem ser vista. Aparentemente, Abrão não se importou com o fato de que a mulher esperava um filho seu, nem Sarai se preocupou com a gestação do filho que ela queria para si. A única coisa que se enxergava era o aborrecimento da senhora rica.

Nesse ponto do texto, um novo personagem passa a compor o drama. “O Anjo do Senhor encontrou Agar perto de uma fonte no deserto, no caminho de Sur.” Estamos diante de uma teofania: o Anjo do Senhor, na verdade, é o próprio Senhor. E esse encontro não foi casual. Quando Agar fugiu, sem que aparentemente ninguém se importasse, o próprio Senhor foi ao deserto ao encontro dela. E perto de uma fonte, no caminho de Sur, ele a encontrou.

“Agar, serva de Sarai, de onde você vem? Para onde você vai?”, perguntou. Ao chamá-la pelo nome, Deus colocou aquela mulher no centro de suas atenções. Tratou-a não como coisa, mas como uma interlocutora privilegiada: foi a segunda vez na história bíblica que Deus falou diretamente com uma mulher. Na primeira, a conversa foi com Eva.

Ao ir ao encontro de Agar no deserto e dirigir-lhe a palavra, Deus restaurou àquela mulher o que lhe havia sido recusado durante toda a vida: dignidade. Deus não estava falando sobre Agar, como faziam Abrão e Sarai. Deus estava falando com Agar, pessoalmente. Ela jamais poderia imaginar, afinal, ela sequer o havia invocado. Estava no deserto, cansada, suja, abatida. Ele, porém, foi ao encontro dela. Deus via Agar.

Mais que isso. Deus tinha um projeto para Agar, diferente de tudo o que ela havia vivido até então. E mostrou isso quando falou sobre o futuro dela, que se confundia com o futuro do filho que estava em seu ventre: “Multiplicarei tanto os seus descendentes que ninguém os poderá contar.” A mesma promessa feita a Abrão, o amigo de Deus, era então feita à escrava Agar.

Naquele encontro no deserto, Deus restaurou a dignidade de Agar e garantiu ao seu filho um futuro com o qual ela nem poderia sonhar. “O Senhor a ouviu em seu sofrimento”, exclamou o Anjo. “Tu és o Deus que me vê”, respondeu aquela mãe.

Agar bem pode ser comparada a um número incontável de mães espalhadas hoje nos desertos da vida. Feitas objeto numa sociedade de consumo, que a tudo transforma em mercadoria, e ignoradas neste mundo perverso, em que a riqueza está cada vez mais concentrada nas mãos de poucos e a sobrevivência do pobre depende da venda dele próprio num mercado de trabalho cada vez mais precarizado, elas vivem uma infindável fuga para lugar nenhum.

Sofrem também a opressão resultante da naturalização do machismo, que construiu ambientes de absurda repressão, legitimando desde o uso da violência contra a mulher até a negação da expressão da sensibilidade que lhe é própria, inclusive nas questões que dizem respeito unicamente a ela mesma. A questão da violência persiste de forma emblemática: a cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil por namorado, marido ou companheiro, segundo dados do Mapa da Violência de 2012 – Homicídio de Mulheres.

E as Agares de hoje atravessam esse deserto com os filhos ao colo. Ano a ano, aumenta o número de mulheres responsáveis, sozinhas, pelo sustento, criação e formação da prole: de acordo com o IBGE, 22 milhões de famílias brasileiras têm uma mulher como “pessoa de referência” (termo que hoje substitui a expressão “chefe de família” nos questionários). A falta de solidariedade e de responsabilidade para com o outro, característica dos tempos atuais, chegou a um nível tal que se tornou comum homens abandonarem à própria sorte seus filhos e a mãe deles. Mulheres escravizadas, diminuídas em sua condição de pessoa humana. Mulheres que não são vistas. Agares, carregando para o mesmo fim o fruto de seu ventre.

É por isso que, principalmente numa ocasião chamada dia das mães, a Igreja não pode deixar-se seduzir pelo sentimentalismo alienante que, inspirado nos interesses fúteis que determinam a organização da vida hoje, dá o tom da data. É urgente que nos identifiquemos com o Deus que vê Agar. Seguindo seu exemplo, devemos ir ao encontro de nossas Agares e fazer ecoar a mensagem divina e libertadora nos desertos em que se encontram. Uma mensagem de restauração da dignidade da mulher e de compromisso com um futuro feliz para seus filhos. A mensagem do Evangelho, em sua plenitude!

 

Paulo Henrique Barbosa
Colaborador da Universidade da Família

CONHEÇA NOSSOS CURSOS